Setor de distribuição investe na integração do biometano à infraestrutura de gás canalizado
Abegás defende a adoção de políticas públicas para ampliar a inserção do biometano nas redes de gás canalizado
O biometano já é uma realidade no setor de distribuição de gás canalizado. Desde 2018, quando a pioneira Companhia de Gás do Ceará (Cegás) começou a distribuir gás renovável oriundo de um aterro sanitário nas imediações de Fortaleza, diversas distribuidoras vêm investindo para incorporar a alternativa em seus portfólios de suprimento.
Em Estados das regiões Nordeste, Sudeste e Sul, seis distribuidoras já mantêm iniciativas em operação e outras vêm estruturando projetos e lançando editais para buscar a aquisição de gás renovável.
Esses esforços, segundo o o diretor executivo da Associação Brasileira das Empresas Distribuidoras de Gás Canalizado (Abegás), Marcelo Mendonça, fazem todo o sentido.
“O biometano tem a mesma molécula (CH4) do gás natural. É fungível e intercambiável. Em um cenário global de adição energética, essa sinergia é estratégica. As redes de gás canalizado são a via mais confiável para facilitar a inserção de gás renovável no mercado, trazendo escala", diz Mendonça.
O diretor destaca que os projetos de expansão são o principal vetor de massificação dos serviços e garantem o crescimento para novos mercados e a integração de consumidores ainda não atendidos, inclusive em regiões interioranas.
“A infraestrutura existente já atinge aproximadamente 47.000 quilômetros de redes. A cada ano, o setor investe cerca de R$ 1,5 bilhão em expansão e saturação de rede de gás natural. Todos esses investimentos contribuem para que o gás natural e o biometano cheguem a mais municípios do País", afirma o executivo.
Além de projetos de conexão de plantas à rede ou a criação de hubs para injetar biometano em suas redes de distribuição, as concessionárias também vêm trabalhando para abrir mercado, com a formação de corredores logísticos nas principais rodovias do Brasil.
Essa iniciativa visa viabilizar a instalação de infraestrutura em postos de abastecimento de GNV e biometano em locais estratégicos, garantindo que veículos pesados, como caminhões, tenham acesso contínuo ao combustível ao longo de suas rotas.
"Os postos nesses corredores são preparados com tecnologia de alta vazão, permitindo abastecimentos rápidos (5 a 10 minutos) para caminhões com grandes capacidades de estocagem (200 a 400 m³), o que é essencial para a eficiência do transporte de cargas", explica Mendonça.
Estudo mede potencial de descarbonização com blend
Embora o biometano, isoladamente, ainda tenha menos competitividade que o gás natural em termos de preço, sua principal vantagem reside no atributo ambiental.
“No momento, o principal mercado para o biometano é de clientes interessados no atributo ambiental, como indústrias com metas de sustentabilidade e empresas de logística rodoviária com planos de descarbonização", afirma o diretor-executivo da Abegás.
A adição de biometano ao gás natural oferece benefícios ambientais significativos.
Um estudo de 2025 da Associação de Análise de Ciclo de Vida (ACV) do Brasil demonstra que o gás natural reduz em 25% as emissões de GEE em comparação ao diesel, e a adição de apenas 5% de biometano ao gás natural reduz em 28% as emissões de GEE em relação ao diesel puro.
Importância de políticas públicas e segurança jurídica
Em abril de 2026, o Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) estabeleceu o percentual de 0,5% de participação do biometano no consumo para este ano. Em fevereiro, a ANP definiu as normas de rastreabilidade e credenciamento de certificadores pela ANP em fevereiro.
"A regulamentação traz segurança jurídica, o que é essencial. Acreditamos que, além disso, é preciso que tenhamos políticas públicas que incentivem o gás natural como um combustível de transição. O gás natural é a melhor opção para substituir imediatamente o diesel nos transportes e isso é um passo para a inserção massiva do biometano”, diz Mendonça.
Outras medidas como a isenção ou redução de tributos em veículos pesados, a redução ou isenção de pedágios federais e estaduais, a ampliação das linhas de financiamento para o setor de gás natural, também são apontadas como estímulos fundamentais para aceleraa renovação de frotas de caminhões e ônibus municipais para veículos movidos a gás e biometano.
"Um estudo mostra que as redes de distribuição de gás canalizado,nas principais capitais do País, está próxima à maior parte das garagens de concessionárias de transporte público”, assinala odiretor da Abegás.
“É uma infraestrutura disponível e capaz de atender a demanda, o que não necessariamente ocorre com a opção de ônibus elétricos. Então, essa substituição por gás e biometano teria um grande potencial de descarbonização imediato e com redução das emissões de particulados, contribuindo para a melhora das condições de saúde da população que é afetada pela fuligem dos ônibus a diesel”, conclui Mendonça.
Conheça as iniciativas das distribuidoras
Algás (Alagoas): Por meio de chamadas públicas, planeja consolidar a aquisição de biometano, que é um dos pilares do recente programa Mais Gás, que visa descarbonizar a matriz energética e converter frotas para combustíveis de menor emissão.
Bahiagás (Bahia): conduz chamada pública para aquisição de biometano, com foco em contratos de longo prazo, visando ampliar a oferta de gás e expandir o atendimento no estado da Bahia. Também estrutura o projeto Oeste Verde, para abastecimento do oeste baiano com biometano.
Cegás (Ceará): é pioneira na distribuição de biometano no Brasil, iniciando a injeção em 2018. O gás renovável vem do Aterro Sanitário Metropolitano Oeste de Caucaia, purificado pela GNR Fortaleza. Com a iniciativa, cerca de 15% do gás distribuído em sua rede é composto por biometano.
Copergás (Pernambuco): distribui, desde março, o biometano produzido pela Orizon em Jaboatão dos Guararapes (PE) – a capacidade é de 110 mil m³/dia, com potencial de até 130 mil m³/dia. Investiu ~R$ 25 milhões para conectar a planta à rede. Biometano deve chegar a 8% do volume de gás distribuído em Pernambuco ainda em 2026.
Comgás (São Paulo): conectou as plantas de Piracicaba e Paulínia à sua rede, a maior do país. Com oferta superior a 290 mil m³, a companhia se consolida como a maior distribuidora de biometano do Brasil.
Compagas (Paraná): Fez investimentos em expansão de rede superiores a R$ 10 milhões e implantou uma base operacional para abastecimento de indústrias por carretas de gás comprimido no Norte do Paraná. As cidades de Londrina e Cambé se tornaram as primeiras do Paraná a ter a distribuição de biometano via rede canalizada.
ES Gás (Espírito Santo): prevê conectar quatro plantas de biometano à rede até 2030 conforme Plano de Negócios quinquenal. O primeiro contrato, com a Marca Ambiental, permitirá a partir de 2026 a injeção de gás renovável oriundo de resíduos sólidos urbanos, fortalecendo a descarbonização da matriz energética estadual.
Gasmig (Minas Gerais): abriu, em maio, chamada pública para aquisição de biometano com foco na distribuição no Triângulo Mineiro, polo produtivo com forte atividade agropecuária, potencial produtor de biometano. A expectativa, com a garantia de oferta, é de construir redes locais de distribuição.
Naturgy (RJ): fez em janeiro de 2026 sua primeira chamada pública de aquisição de biometano para incentivar a produção local e a valorização econômica dos resíduos orgânicos.
Naturgy (SP): em março de 2026, lançou a chamada pública para conexão de plantas de biometano ao seu sistema de distribuição.
Necta Gás (São Paulo): pioneira no país a implantar uma rede 100% dedicada a biometano no Noroeste Paulista, a partir do insumo fornecido pela Cocal em Narandiba (SP), para o atendimento de cerca de 5 mil clientes em Presidente Prudente nos segmentos industrial, residencial, comercial e GNV (gás natural veicular).
Potigás (Rio Grande do Norte): já mapeou o potencial de projetos de biometano (resíduos agroindustriais e sólidos) que somam mais de 35 mil m³/dia de capacidade e vem estruturando modelos de negócio e logísticos, buscando a integração entre produtores e mercado para destravar investimentos e diversificar suas fontes de suprimento.
PBGÁS (Paraíba): está em tratativas com três supridores que investiram na produção de biometano nos aterros sanitários de João Pessoa (Orizon) e de Campina Grande (Ecosolo Gestão Ambiental de Resíduos) e de Guarabira (Ecosolo). Contratos em negociação.
SCGÁS (Santa Catarina): está analisando propostas de biometano recebidas por chamada pública e lançou um edital para operação de hub de injeção, ambos em Lages. Também vem avançando com estudos para implantação de rede local em Chapecó, no Oeste do estado, dentre outros projeto.
Sulgás (Rio Grande do Sul): em 2026, iniciou a injeção de até 30 mil m³/dia de biometano produzido pela Bioo, em Triunfo, na rede de distribuição. Também lançou o Sulgás BioHub, em Esteio, ponto estruturado para recebimento do gás renovável, com potencial de dobrar a oferta no RS.



