Em três estados, as estratégias para substituir o diesel

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Em três estados, as estratégias para substituir o diesel

Boa parte dos sistemas isolados remotos funciona apenas parte do dia para economizar diesel, limitando o desenvolvimento socioeconômico de comunidades remotas. Nesta matéria, as estratégias de concessionárias e uma empresa para enfrentar os desafios

Por Eugênio Melloni

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Equatorial PA conclui lançamento de cabos aquáticos no Rio Trombetas, parte do projeto que vai interligar os municípios de Terra Santa e Faro ao Sistema Interligado Nacional (SIN) (Foto: Divulgação/Equatorial Energia)

O Planejamento do Atendimento aos Sistemas Isolados (SI) publicado pela EPE indica que o país fechou 2025 com 160 sistemas isolados, atendendo 1,9 milhão de pessoas com uma carga de 3.761 GWh. O uso do diesel para alimentar a geração nesses SI representou 70% do total.

O custo deste combustível não é nada desprezível – R$ 11,456 bilhões, em 2025 – e entra na fatura de todos os brasileiros através da Conta de Consumo de Combustíveis (CCC). O número vem caindo ano a ano. Em 2024 foi maior em R$ 1,174 bilhão em relação ao ano seguinte e antes da interligação de várias comunidades à rede do Sistema Integrado Nacional (SIN).

Ao todo, no ano passado, 15 localidades passaram a receber energia das redes, como Cruzeiro do Sul e Guajará (AC), Itapiranga e Silves (AM), Cotijuba, Oeiras do Pará e Santa Cruz do Arari (PA). Dados obtidos no MME dão conta de que as 13 interligações ao SIN, como parte do programa federal Energias do Amazonas, passaram a atender mais de 500 mil consumidores na Amazônia Legal.

O principal feito nessa frente foi a conexão de Boa Vista (RR), juntamente com localidades das suas imediações, como Alto Alegre, Bonfim, Caracaraí, Mucajaí, Normandia, Rorainópolis e São João da Baliza.

Mapa EPE

Além das interligações, outras iniciativas vêm contribuindo para mudar o perfil do abastecimento de energia na Amazônia. A primeira chamada pública de projetos do Pró-Amazônia Legal, dentro do Energias do Amazonas, aprovou 14 projetos para atendimento a 36 sistemas isolados e 652 mil pessoas. Juntos, esses projetos deverão economizar o consumo de 270 milhões de litros de diesel/ano e evitar a emissão de 800 mil t/ano de CO2.

Outra iniciativa de destaque foi a realização do primeiro leilão de projetos de sistemas isolados obedecendo as diretrizes do Energias da Amazônia, que requer a hibridização das usinas com um mínimo de 22% de energia limpa e a precificação de carbono. O leilão, realizado em setembro de 2025, resultou na contratação de 50 MW de potência, com investimento de R$ 312 milhões, destinados a atender 30 mil pessoas em localidades remotas do Amazonas e Pará.

No Pará, menos 10 SI até 2027

No Pará, estado que ocupa quase 15% do território nacional mas onde vivem apenas 4% da população do país, a Equatorial tem um programa acelerado de expansão de sua rede de distribuição e desativação de geradores a diesel.

Na sua área de concessão ainda existem 10 sistemas isolados em operação, dos quais 9 têm previsão de serem interligados ao SIN até o final de 2027. São cerca de 40 mil unidades consumidoras nos municípios de Anajás, Afuá, Muaná, São Sebastião da Boa Vista, Gurupá, Porto de Moz, Faro, Jacareacanga, Aveiro e Terra Santa.

Giorgiana Freitas Pinheiro, gerente de Geração da Equatorial Pará“Desde 2012, a distribuidora vem desativando usinas movidas a combustíveis fósseis”, conta Giorgiana Freitas Pinheiro (foto), gerente de Geração da Equatorial Pará. No período, foram desativadas 23 usinas a diesel.

A integração de comunidades antes atendidas pelos sistemas isolados produziu um salto na qualidade do fornecimento de energia para as populações atendidas, ao reduzir as interrupções e garantir o serviço 24 horas. “Trata-se de uma transformação estrutural que contribui para o crescimento econômico sustentável do Estado do Pará”, destacou.

Os principais desafios são a geografia e a logística no Pará, com aproximadamente 1,24 milhão de km² e densidade demográfica de 6,99 habitantes por km² (IBGE, 2025). “Grande parte das localidades atendidas em áreas remotas é cercada por vegetação densa só acessadas por via fluvial, o que torna a execução das obras mais complexa e onerosa”, comentou.

Os investimentos elevados em infraestrutura elétrica básica para essas áreas rurais isoladas nem sempre geram retorno. Em muitos casos, um ramal de mais de 10 km atende um número reduzido de consumidores e de baixo poder de consumo.

No Amapá, kits solares individuais

No Amapá, a transição energética no fornecimento de energia elétrica segue o ritmo do Programa Luz para Todos – Regiões Remotas, idealizado para universalizar o atendimento.  A CEA Equatorial, concessionária do mesmo grupo que atende o Pará, usa uma estratégia diferente do estado vizinho - geração solar fotovoltaica com armazenamento em baterias - para localidades, muitas delas, sem viabilidade para se conectarem ao SIN. 

A distribuidora tem levado kits fotovoltaicos individualizados a comunidades ribeirinhas, indígenas e quilombolas e diz ter atendido mais de 6 mil famílias em sete municípios. A previsão é de encerrar 2026 com mais de 1.700 novas instalações.

SI no Oiapoque da CEA Equatorial

CEA Equatorial realizou 162 ligações, por meio da instalação de sistemas individuais de geração de energia solar (SIGFI), nas comunidades de Vila Velha, Vila Alegre e 1ª do Cassiporé, no município de Oiapoque (AP), como parte do Programa Luz para Todos – Regiões Remotas (Foto: Divulgação/CEA Equatorial)

Da mesma forma que no Pará, além dos ganhos ambientais, as mudanças trazem impactos sociais relevantes para as comunidades atendidas. O acesso contínuo à energia elétrica permite melhorias na conservação de alimentos e medicamentos, acesso à informação, educação e desenvolvimento de atividades produtivas locais, além de proporcionar inclusão social para famílias que historicamente viviam em situação de vulnerabilidade energética.

Aggreko quer fazer da Amazônia uma vitrine

A escocesa Aggreko, que tem sistemas de geração instalados em cerca de 70 países, conquistou, no ano passado, cinco lotes oferecidos na chamada pública realizada pelo Comitê Gestor do Pró-Amazônia Legal (CGPAL), que integra o Programa Energias da Amazônia. Como produtor independente de energia, a empresa deverá atender 24 localidades do Estado do Amazonas, com sistemas de geração fotovoltaica associados a bancos de baterias operando de forma coordenada com os sistemas de geração fóssil, já existentes.

Serão instalados novos sistemas em Tefé, Tabatinga, Benjamin Constant, Carauari, Eirunepé e Fonte Boa, entre outros municípios, num total de 109 MWp de capacidade de geração solar fotovoltaica e 119 MWh em armazenamento por baterias (BESS) distribuídos.

Em março, a Aggreko anunciou que a chinesa Huawei será sua parceira na tecnologia do armazenamento e que investirá R$ 850 milhões na implantação dos sistemas híbridos no Amazonas entre 2027 e 2028.

“Operando integradamente com as geradoras térmicas já em operação, as novas usinas fotovoltaicas associadas a sistemas de armazenamento irão garantir a estabilidade da rede”, explicou o diretor de Vendas Utilities Brasil da companhia, Cristiano Lopes Saito.

Sistema Aggreko

Sistema híbrido da Aggreko em Caiambé (AM), piloto de P&D da Aneel, servirá de guia para as propostas da empresa do Pró-Amazônia Legal (Foto: Divultação/Aggreko)

Os projetos deverão proporcionar uma economia anual de cerca de 37 milhões de litros de diesel, prevê Saito “e deixaremos de emitir aproximadamente 104 mil t de CO2 por ano, considerando todo o escopo do projeto no estado”.

A expertise e tecnologia utilizadas nesses projetos vem da experiência da Aggreko em Caiambé, localidade amazonense atendida por um projeto piloto de P&D da Aneel que serviu de guia para as propostas da Aggreko ao Pró-Amazônia Legal.

“Em Caiambé, a configuração foi dimensionada de forma híbrida e otimizada. Combinamos 1,4 MW de capacidade térmica a um parque solar de 373 kWp e um sistema BESS (baterias) de 1 MW / 500 kWh”, detalhou Saito.

Por trás do sistema de painéis solares e baterias, há também um “operador” que os coordena. “A Aggreko atua como a integradora oficial do projeto de 6 MW, com capacidade de expansão modular até 20 MW. Para esse sistema, a empresa desenvolveu um software proprietário de gerenciamento de energia (EMS - Energy Management System)”.

Pelo impacto socioeconômico e ambiental de seu projeto na Amazônia, a companhia enxerga o modelo como uma vitrine global: “O aprendizado tecnológico de microrredes que desenvolvemos na floresta tropical será exportado para aplicações de missões críticas em outros continentes, atendendo setores como mineração isolada, agricultura de grande porte e ilhas remotas que buscam se descarbonizar com segurança e previsibilidade financeira”.

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