Revista Brasil Energia | ROG.e 2026

Abrace cobra choque de custos e transparência no gás natural

Adrianno Lorenzon analisa o leilão do gás da União, a primeira revisão tarifária do transporte, os gargalos nas distribuidoras estaduais e o potencial represado da demanda industrial

Por Rosely Maximo

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A redução efetiva dos custos de transação e fornecimento é a chave para reverter a trajetória de estagnação do consumo industrial de gás natural no Brasil, cuja demanda tem potencial para saltar em mais de 20 milhões de m³/dia caso o preço final convirja para patamares competitivos internacionais. A avaliação é de Adrianno Lorenzon, diretor de Gás Natural da Associação dos Grandes Consumidores Industriais de Energia e de Consumidores Livres (Abrace) e presidente do Conselho de Usuários.

Em entrevista à Brasil Energia durante a ROG.e, Lorenzon classificou a publicação da portaria do primeiro leilão de gás da União (PPSA) como um marco histórico para conferir transparência e sinalização de preços ao mercado. O executivo apontou que 2026 concentra decisões regulatórias decisivas na ANP, como a primeira revisão tarifária das transportadoras sob o rito da Nova Lei do Gás (com defesa do método RCM) e as regras de acesso a dutos e UPGNs. Lorenzon alertou ainda para as assimetrias regulatórias e os aumentos de tarifas de distribuição nos estados, que continuam freando a migração de médios consumidores ao mercado livre.

Veja os principais destaques da entrevista:

Leilão do gás da União como formador de preço

A portaria do Ministério de Minas e Energia (MME) para a venda do gás da partilha pela PPSA é vista como histórica. Ao ofertar 1,1 milhão de m³/dia com cotas proporcionais à indústria, o certame revelará uma referência pública e competitiva de preço para a molécula, rompendo a lógica de precificação imposta pelo agente dominante.

Superação do custo da molécula no Brasil

O custo médio do gás entregue à indústria nacional ronda US$ 13 por milhão de BTU — nível superior ao de países vizinhos como Chile (que não produz a molécula), Argentina, Colômbia e Peru, e distante da competitividade da América do Norte. Uma redução para o patamar de US$ 7 a US$ 8/MMBtu destravaria até 20 milhões de m³/dia em consumo fabril adicional.

Primeira revisão tarifária do transporte 

No processo tarifário que envolve as grandes malhas de transporte (NTS, TAG e TBG), a Abrace defende a adoção do método do Custo Histórico Recuperado (RCM) para a valoração da base de ativos, apontando ser o único modelo regulatório capaz de refletir a transição justa dos contratos legados e possibilitar redução tarifária de até 25%.

Gargalos nas distribuidoras estaduais e custos de rede

O avanço do mercado livre atingiu cerca de 80% do volume consumido pelos grandes clientes industriais, mas a transição de médios e pequenos consumidores esbarra em custos transacionais e na falta de regulamentação. Estados como Bahia e Pernambuco apresentam entraves para a homologação do contrato de uso do sistema de distribuição (CUSD) e aumentos recorrentes de margens de distribuição, estimulando indústrias a migrarem para eletrificação ou biomassa.

Harmonização regulatória e carência de dados

O setor apoia iniciativas como o Pacto Nacional pelo Desenvolvimento do Mercado de Gás, mas cobra maior transparência pública sobre os volumes efetivamente negociados no mercado livre, sugerindo a criação de indicadores oficiais unificados por ANP e ABAR.

Critérios para planos de expansão do transporte

Ao avaliar o Plano Coordenado das Transportadoras, Lorenzon ressaltou a prioridade de obras que eliminem gargalos de escoamento — como a estação de compressão de Japeri (NTS), que viabiliza o envio de gás do pré-sal para São Paulo e TBG. Contudo, defendeu que ampliações adicionais de malha exijam âncoras firmes de consumo industrial para não onerar desnecessariamente a tarifa paga pelos usuários.

Veja a entrevista na íntegra aqui.

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