Térmicas a biodiesel ganham vez no leilão de capacidade
Conteúdo oferecido por TERMOGÁS e DIAMANTE ENERGIA
Térmicas a biodiesel ganham vez no leilão de capacidade
Dos 38 projetos inscritos, 20 são de usinas a biodiesel, com capacidade para gerar 3.047 MW, enquanto 18 são movidos a diesel e óleo combustível, totalizando 2.843 MW
A expectativa do setor de biodiesel em relação ao próximo Leilão de Reserva de Capacidade (LRCAP) é de que a fonte consolide, pela primeira vez, um espaço estrutural na geração termelétrica brasileira sob contratos de longo prazo.
A avaliação é de Daniel Furlan (foto), diretor da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove), que vê a participação do biocombustível no certame como desdobramento natural da estratégia brasileira de substituição gradual dos combustíveis fósseis, agora estendida de forma mais explícita ao setor elétrico.
“Nós encaramos isso como um processo natural. O biodiesel hoje é um produto com um grau de compatibilidade elevadíssimo com o diesel e o Brasil vem há décadas promovendo a substituição, agora também de forma mais explícita no setor elétrico”, comenta.
O LRCAP prevê a contratação de potência a partir de diferentes datas de suprimento, conforme o produto, a partir do segundo semestre deste ano. Mas no caso específico das termelétricas a biodiesel, os contratos têm início a partir de 2030 e envolvem usinas existentes, que passam a substituir o combustível fóssil pelo biocombustível, sem ou com adaptação futura, a depender do projeto.
A disputa se dará no segundo dia do leilão, em 20 de março, data reservada aos combustíveis líquidos: óleo combustível, diesel e biodiesel. A Portaria Normativa MME nº 119/2025 estabelece contratos de 10 anos para o biodiesel e de três anos para as usinas a óleo, ambos restritos a empreendimentos existentes.
No processo de cadastramento do LRCAP, essas fontes reuniram 38 projetos, somando 5.890 MW de potência cadastrada. Desse total, o biocombustível teve leve vantagem: 20 projetos de usinas a biodiesel responderam por 3.047 MW, enquanto 18 projetos movidos a óleo de origem fóssil (diesel e óleo combustível) totalizaram 2.843 MW.
A presença do biodiesel no LRCAP, é bom ressaltar, marca uma inflexão regulatória relevante. A fonte não foi contemplada no primeiro Leilão de Reserva de Capacidade, de 2021, e tampouco integrou o desenho final do LRCAP 2025, que acabou não sendo realizado.
No redesenho regulatório posterior, já no âmbito da discussão do certame que será realizado dias 18 e 20 de março, o biodiesel chegou ainda a ficar fora da proposta inicial do certame, sob o argumento de incertezas quanto à garantia de suprimento contínuo ao longo do ano, requisito associado aos produtos de reserva de capacidade. Foi reincluído apenas na versão final das diretrizes, depois de manifestações de agentes do setor.
Concentração
Embora a EPE não divulgue a lista nominal dos empreendimentos cadastrados, a análise dos polos com capacidade de escoamento liberada pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) indica que a maior parte dos projetos a biodiesel deve se concentrar no Norte e no Nordeste, regiões com histórico de usinas a óleo passíveis de conversão e maior necessidade de potência despachável. Também há expectativa de participação pontual no Sul, especialmente em Uruguaiana, enquanto o Sudeste tende a ter presença mais limitada.
Para Furlan, da Abiove, porém, restrições regionais não se sustentarão à luz da evolução do setor. Isso porque, para ele, a entrada do biodiesel nos leilões de reserva reflete sua alta compatibilidade técnica com o parque termelétrico existente, o que pode pavimentar o terreno para a fonte se expandir em mais leilões futuros.
Segundo ele, essa intercambialidade permite o aproveitamento de ativos já instalados, sem necessidade de conversões tecnológicas relevantes, novas máquinas ou adaptações estruturais em geradores. Esse ponto é particularmente relevante no desenho do leilão, já que boa parte dos projetos cadastrados com biodiesel deve envolver usinas originalmente concebidas para operar com diesel, que passam a utilizar biodiesel total ou parcial.
Além disso, o Brasil dispõe de ampla base de matérias-primas e crescente diversificação, o que torna a fonte competitiva para garantir potência em todo o país. A soja responde hoje por cerca de 70% do biodiesel produzido, mas é seguida por gorduras animais, óleos residuais, algodão e palma. Furlan chama atenção ainda para a expansão da canola no Rio Grande do Sul, cultura de inverno com teor de óleo significativamente superior ao da soja, além do avanço no aproveitamento de resíduos. Por fim, a possibilidade de armazenagem dos grãos por mais de 12 meses assegura oferta contínua.
Suape
Apesar do sigilo da EPE com os projetos cadastrados, um caso de térmica a biodiesel que quer ser viabilizada é a Energética Suape II, em Pernambuco. Com a inclusão do biodiesel no LRCAP, a companhia decidiu realizar a conversão da térmica Suape II, a maior a utilizar óleo combustível no país, com 381,2 MW de capacidade, para o biocombustível.
Segundo disse o diretor da Suape Energia, José Faustino, em reportagem da Brasil Energia no fim de 2025, a conversão poderá ser realizada em no máximo seis meses e deverá demandar investimentos entre R$ 60 milhões e R$ 80 milhões.

Cultivo de canola: produtora de biodiesel 3Tento fomenta a produção no RS como cultura de rotação com o trigo no inverno (Foto: Divulgação)
Caso a Energética Suape II seja uma das vencedoras do certame, será possível renovar o contrato de PPA da termelétrica, a expirar no final deste ano. Diante desse cenário, segundo Faustino, a usina poderá operar a partir de 2027, ainda com óleo combustível, migrando posteriormente para biodiesel B100 ao longo dos dez anos seguintes.
Parte dos investimentos na conversão da Suape II será destinada ao sistema de estocagem. A tecnologia para armazenar biodiesel é diferente, porque o biocombustível degrada mais rápido que o óleo combustível. Isso é particularmente relevante porque responde a uma crítica recorrente de que o combustível pode causar problemas em motores, com a formação de borra.
Segundo Furlan, esses problemas decorrem da falta de boas práticas de armazenamento e manutenção e não a limitações inerentes ao biodiesel. “Todo combustível tem um ciclo. Diesel também absorve água, também degrada. Se não houver drenagem e limpeza de tanque, o problema aparece”, observa.
O diretor da Abiove destaca que o mercado tem respondido a essas questões com aditivação e aprimoramento de formulações, inclusive no diesel. “Não houve nenhuma mudança estrutural no biodiesel. O que houve foi desenvolvimento tecnológico para lidar com condições climáticas variadas, algo essencial em um país como o Brasil”, afirma.
Embora reconheça que o biodiesel tem poder calorífico inferior ao do diesel, Furlan avalia que a pequena diferença não compromete sua competitividade para a reserva de capacidade.
Em contrapartida, os ganhos ambientais são significativos: considerando todo o ciclo de vida, o biodiesel reduz em média 80% das emissões de gases de efeito estufa e ao menos 50% de material particulado em comparação ao diesel.
Os preços do biodiesel também são superiores ao do óleo combustível, mas a expectativa é de que o custo de geração da UTE a biodiesel não seja muito superior ao atual, em função dos investimentos realizados na modernização dos equipamentos. No caso da Suape II, segundo Faustino, nos últimos cinco anos foram investidos cerca de R$ 150 milhões.
Suprimento
A questão do suprimento, central nas decisões regulatórias anteriores, é tratada pela Abiove como superada. O setor opera atualmente com 40% de ociosidade, o que permite atender misturas B20 sem restrições.
Para 2026, a ser mantida a mistura de 15% no diesel (B15), a demanda projetada é de 10,5 milhões de m3. Já com a elevação para B16 a partir de março (caso aprovado pelo CNPE) o volume aumenta para 11 milhões de m3/ano, dentro da capacidade adicional disponível superior a 7 milhões de m3/ano.
Na avaliação da Abiove, a participação do biodiesel no LRCAP 2026 inaugura uma frente estratégica de diversificação de mercado para o setor, hoje concentrado no transporte rodoviário. A geração elétrica, ao lado dos usos marítimo, hidroviário, ferroviário e voluntário de B100, amplia o horizonte de demanda e reforça o papel do biodiesel na transição energética.
O potencial técnico é expressivo. Em dezembro, segundo a base Siga/Aneel, o Brasil contava com 2.158 UTEs em operação movidas a derivados de petróleo que, em tese, poderiam migrar total ou parcialmente para biodiesel — sendo 2.116 a diesel e 42 a óleo combustível — o que representa cerca de 6,62 GW de potência instalada.
Veja outras notícias sobre termelétricas e segurança



