Bioenergia como resposta à instabilidade global
Opinião
Bioenergia como resposta à instabilidade global
Como aproximadamente 20% do GNL comercializado no mundo transita pelo Estreito de Ormuz, a EPE avalia que esse contexto “pode ampliar o interesse por alternativas de suprimento, como o biogás e o biometano”, diante da necessidade de diversificar fontes e reduzir a exposição a choques externos de preço e de oferta
O Caderno de Contexto, Perspectivas e Premissas do Plano Decenal de Expansão de Energia (PDE 2036), divulgado em julho último pela EPE, descreve um cenário internacional mais complexo e incerto, marcado por tensões geopolíticas, protecionismo comercial e choques nos mercados de petróleo e gás. Nesse retrato, a bioenergia brasileira aparece como fator de resiliência, diversificação e redução da exposição do sistema energético nacional a choques externos.
O documento destaca, por exemplo, que o conflito envolvendo Irã, Israel e Estados Unidos elevou os riscos para o mercado global de GNL, cuja oferta é altamente concentrada regionalmente. Ataques à infraestrutura no Golfo Pérsico, incluindo danos à planta de Ras Laffan, no Catar (a maior instalação de liquefação de gás natural do mundo), afetaram cerca de 12,8 milhões de toneladas anuais de capacidade, com recuperação estimada entre três e cinco anos.
Como aproximadamente 20% do GNL comercializado globalmente transita pelo Estreito de Ormuz, a EPE avalia que esse contexto “pode ampliar o interesse por alternativas de suprimento, como o biogás e o biometano”, diante da necessidade de diversificar fontes e reduzir a exposição a choques externos de preço e de oferta.
Outro vetor relevante é o crescimento acelerado da inteligência artificial e dos data centers, que já responderam por aproximadamente 1,5% do consumo mundial de eletricidade em 2024. O avanço desse segmento também contribuiu para a forte expansão dos pedidos por turbinas a gás natural, que cresceram em torno de 70% em 2025 (o maior crescimento dos últimos 25 anos), pressionando custos e prazos de entrega.
No Brasil, a elevada participação de renováveis na matriz é apontada como diferencial competitivo para atrair data centers; ainda assim, o caderno reconhece que a geração própria desses empreendimentos pode ampliar o uso de gás natural, cenário em que “o biometano também surge como alternativa para ampliar a renovabilidade do suprimento energético” (EPE, 2026).
O caderno também mostra a transformação da matriz energética brasileira: entre 2015 e 2025, a participação das fontes renováveis na Oferta Interna de Energia subiu de 42% para 50%. No mesmo período, a participação específica da biomassa da cana recuou ligeiramente, de 16,9% para 15,8%, enquanto eólica, solar e outras fontes renováveis avançaram de 5,0% para 14,7%.
Mais do que uma perda de espaço da bioenergia, esses números mostram uma matriz em processo de diversificação, na qual diferentes fontes renováveis intermitentes passam a desempenhar papéis significativos.
Por fim, o caderno reforça o papel histórico do etanol e do biodiesel na segurança energética do País. O Brasil responde por cerca de 22% da produção mundial de biocombustíveis. Sem a mistura obrigatória de etanol à gasolina, as importações brasileiras de gasolina A seriam dez vezes maiores; sem o biodiesel misturado ao diesel, as importações de óleo diesel A seriam cerca de 60% superiores às observadas em 2025.
São números que ilustram que a bioenergia não é apenas uma alternativa de descarbonização: ela já funciona como mecanismo de redução da vulnerabilidade externa brasileira.
O PDE 2036 também aponta para os biocombustíveis avançados, foco estratégico em combustíveis sustentáveis de aviação (SAF) e diesel verde em setores de difícil descarbonização, ao mesmo tempo em que identifica o biometano como uma nova fronteira de expansão.
As projeções demográficas e econômicas que integram o caderno também criam condições favoráveis para a expansão da bioenergia pelo lado da oferta de biomassa e resíduos. Entre 2026 e 2036, a agropecuária deve crescer em ritmo médio de 3,2% ao ano, o maior entre os grandes setores da economia. Esse dinamismo tende a ampliar as oportunidades de aproveitamento de resíduos agroindustriais para bioeletricidade, biogás e biometano.
Ao situar biogás, biometano, bioeletricidade e biocombustíveis dentro desse panorama geopolítico, tecnológico e econômico, o PDE 2036 oferece elementos para interpretar a bioenergia como uma dimensão estratégica da resiliência energética brasileira.
O recado é relevante: em um mundo mais fragmentado e sujeito a choques de oferta, preços internacionais e infraestrutura, ampliar o aproveitamento do potencial técnico da bioenergia pode contribuir simultaneamente para diversificar a matriz, reduzir vulnerabilidades externas e avançar na transição energética. Cabe, portanto, que esse potencial seja considerado de forma cada vez mais consistente nas políticas públicas e nas decisões de investimento para o horizonte decenal.



