Potenciais de desenvolvimento na Margem Equatorial

Opinião

Potenciais de desenvolvimento na Margem Equatorial

Não se trata de replicar no Amapá o parque industrial do Rio de Janeiro, mas identificar quais elos da cadeia fazem sentido econômico no Norte. Além de atender à nova área exploratória brasileira, o estado está próximo às novas fronteiras petrolíferas da Guiana e do Suriname

Por Telmo Ghiorzi

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Em agosto de 2026, cerca de 13 anos após o leilão de 2013, a Petrobras anunciou ter encontrado indícios de hidrocarbonetos em bloco exploratório na Margem Equatorial. Esta notícia era precisamente o que se esperava após a licença ambiental obtida em 2025. Os passos subsequentes são perfurar mais poços, para confirmar se a descoberta é técnica e economicamente viável. O primeiro resultado reduz substancialmente o risco geológico, mas ainda são necessários mais poços para delimitar e avaliar a descoberta.

Por outro lado, o risco de não transformar esta descoberta em avanços econômicos expressivos para o Brasil permanece. O Brasil tem histórico irregular na transformação de vantagens em recursos naturais em capacidades industriais competitivas e exportadoras.

A licença obtida em 2025, cerca de 10 anos após o esperado, foi manchete na imprensa local. Um fato até então corriqueiro e trivial virou manchete em razão do prazo e do embate político que, para além de critérios técnicos, permearam o processo.

O caso inspira dúvidas e, por conseguinte, postergações em decisões de investimentos. Foi uma vitória para o Brasil e para a indústria do petróleo, mas está longe de trazer estabilidade e tranquilidade ao setor. Temos as competências para superar os riscos técnicos. Mas os riscos regulatórios permanecem como ameaça importante. Há um impasse cuja resolução é imperativa ao Brasil.

O Amapá se destaca como região para instalação de parque industrial regional. Primeiramente pela própria proximidade do bloco sendo explorado agora. Mas há outros fatores geográficos sugestivos de vantagens deste estado. O Amapá está na extremidade norte da Margem Equatorial brasileira e em posição geográfica próxima às novas fronteiras petrolíferas da Guiana e do Suriname, países que já estão mais avançados na exploração e produção de petróleo.

Segundo dados do Mdic, o Brasil foi de quase zero em 2019, para um total de US$1,8 bilhão de exportações para a Guiana de 2020 até junho/2026. A expansão acelerada das atividades petrolíferas no país motivou este espantoso avanço nas nossas exportações. Os dados são agregados, mas permitem inferir que equipamentos para o setor de petróleo respondem por parcela bastante expressiva deste crescimento.

Além da Guiana, há potencial a ser explorado no Suriname e até na Guiana Francesa, se o parlamento reverter decisão de 2017 impedindo exploração de petróleo em território francês.

Se incluirmos em nossa pauta exportadora para esta região outros equipamentos submarinos e módulos utilizados nos conveses das FPSO, segmento em que o Brasil também reúne grandes competências, podemos avançar de produtor de petróleo para a condição de exportador relevante de bens e serviços desta indústria. Um resultado em que o Brasil permanece com números muito aquém de seu potencial e de suas necessidades socioeconômicas.

É claro que estados das Regiões Sul e Sudeste do Brasil, sobretudo Rio de Janeiro e São Paulo, mas também os demais, serão mais intensa e rapidamente afetados, pois seu parque industrial no setor de petróleo já é maduro. Mas o potencial e as vantagens iniciais do Amapá são suficientemente expressivos para justificar uma estratégia específica.

Não se trata de replicar no Amapá o parque industrial do Rio de Janeiro. Trata-se de identificar quais elos da cadeia fazem sentido econômico no Norte - bases logísticas, manutenção, integração, montagem, apoio offshore, armazenagem, serviços técnicos e, progressivamente, atividades industriais de maior complexidade.

Para materialização destas possibilidades, tão realistas quanto desejáveis, o Brasil precisa avançar em instrumentos de política industrial, para a indústria em geral, e para a de petróleo, em particular, e construir acordos comerciais com estes países.

Eis um desafio quase intransponível. O entusiasmo com as descobertas pode atrapalhar os esforços na direção de mais adensamento industrial e de mais exportação de bens e serviços.

É preciso resiliência e insistência para industrializar um país com nossa história de foco em extrativismo e bens primários. O fim da Margem Equatorial vai muito além de extrair petróleo. O fim é usar o petróleo como alavanca de industrialização.

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