Os limites da reinjeção de gás natural
Opinião
Os limites da reinjeção de gás natural
O desafio é não reinjetar o excedente, rever os planos de investimento e desenvolvimento dos campos para manter a rentabilidade também no longo prazo
Há alguns anos o debate sobre a extração de petróleo e gás no Brasil inclui a questão da reinjeção de gás natural nos campos de petróleo. No entanto, as soluções propostas passam muito mais pela via governamental do que mercadológica, o que reduz as probabilidades de solução desse aparente problema.
O gás natural tem uma parcela de reinjeção técnica nos campos de produção. Isso ocorre para permitir a separação de contaminantes sem valor comercial como o CO2, sendo a contrapartida disso uma perda da produção do metano e outras frações do gás natural produzido. No entanto, há uma parcela excedente reinjetada que promove o aumento da produtividade do campo ao permitir a extração de maiores volumes de óleo.
Só que essa decisão não visa unicamente maximizar a produção. Trata-se de uma decisão econômica. Basta pensar que nenhuma companhia assumiria esse custo somente observando a produção corrente. O custo de reinjeção é uma função crescente da separação de fluidos e há um gasto planejado para essa operação.
A decisão econômica é causada pela falta de infraestrutura e de gasodutos que permitam o perfeito escoamento de gás produzido. Isso se configuraria um problema futuro na medida em que 1) a razão óleo/gás é decrescente no tempo e 2) a proporção de percentual reinjetado é variável, dependente da quantidade de campos explorados no país.
Os custos futuros aumentam de tal forma que já pagariam os investimentos em infraestrutura adequada de escoamento de produção. Na prática, as companhias fazem escolhas ótimas no curto prazo (aumento da produtividade), mas subótimas no longo prazo.
Estudos técnicos apontam que a redução do gás reinjetado para os níveis estritamente necessários aumentariam a taxa interna de retorno dos campos e o valor presente líquido das companhias. O desafio é não reinjetar o excedente, rever os planos de investimento e desenvolvimento dos campos para manter a rentabilidade também no longo prazo.
Essa mudança de paradigma aumentaria a oferta de gás no país, barateando todos os insumos da cadeia, aumentaria os retornos e não seria uma medida artificial vinda do governo.
Para isso as companhias precisam investir em tecnologia nas plataformas, que permita a otimização do transporte de gás e incluir não o capex do campo, mas a receita advinda da comercialização de gás produzido em cada campo.
Uma mudança de mentalidade que teria efeitos no longo prazo, mas precisa ser discutida no presente pelo setor petroleiro nacional e conduzida por ações assertivas do governo enquanto regulador.



