Onde está o maior barril perdido do Brasil?

Opinião

Onde está o maior barril perdido do Brasil?

Campos maduros e áreas de economicidade marginal não são necessariamente campos sem petróleo. O desafio, além de maior eficiência operacional, é transformar essa percepção em política permanente de recuperação do barril que ainda pode ser produzido

Por Lucas Mota

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O Brasil tem discutido intensamente novas fronteiras exploratórias, grandes descobertas e projetos de elevada escala. Essa agenda é fundamental. Mas existe uma oportunidade menos evidente e potencialmente tão estratégica quanto a abertura de novas fronteiras; produzir melhor o petróleo e o gás que já conhecemos e que permanecem no subsolo de campos maduros e de menor porte.

Esse pode ser um dos maiores “barris perdidos” da indústria brasileira de petróleo e gás.

Campos maduros e áreas de economicidade marginal não são necessariamente campos sem petróleo. São ativos que entram em uma fase mais complexa de produção: a pressão do reservatório diminui, a produção declina, os custos operacionais aumentam e cada barril adicional exige mais conhecimento, tecnologia, investimento e eficiência.

Em muitos casos, ainda há petróleo e gás recuperáveis. O desafio é transformar esse potencial geológico em produção economicamente viável. O desafio é também transformar essa percepção em uma política permanente de recuperação do barril que ainda pode ser produzido.

O barril perdido não está apenas no reservatório

Quando se fala em aumento da produção, é comum imaginar a necessidade de descobrir novos campos. Em muitos casos, porém, existe uma alternativa mais rápida e eficiente: produzir melhor aquilo que já foi descoberto.

Isso significa aumentar o Fator de Recuperação, reavaliar o comportamento dos reservatórios, recompletar poços, realizar novas perfurações, implementar métodos de recuperação secundária e terciária, substituir equipamentos e utilizar tecnologias adequadas às características de cada ativo.

Mas o barril perdido também pode estar em problemas aparentemente simples: poços parados, sistemas de elevação artificial inadequados, falhas de equipamentos, restrições de capacidade, problemas de pressão de reservatório, gargalos de escoamento e instalações operando abaixo de sua capacidade. Em um campo maduro, cada uma dessas questões pode representar a diferença entre prolongar a produção ou antecipar o abandono.

O problema também está acima do subsolo

Não basta existir petróleo ou gás. É preciso haver condições econômicas para produzi-los. É justamente nesse ponto que o Brasil ainda pode avançar.

Um campo pequeno não pode ser regulado exatamente da mesma maneira que um projeto de grande escala e elevada rentabilidade. Um ativo maduro, em declínio, enfrenta realidade econômica e operacional muito diferente daquela de um novo projeto de grande porte.

A ausência de uma regulação proporcional ao porte, ao risco e à maturidade dos ativos pode transformar obrigações administrativamente justificáveis em custos capazes de inviabilizar projetos que ainda poderiam gerar produção, empregos e arrecadação.

O mesmo princípio deve orientar o licenciamento ambiental. Licenciar melhor não significa licenciar menos. Significa estabelecer processos proporcionais aos riscos, previsíveis e eficientes, preservando elevados padrões de proteção ambiental e, ao mesmo tempo, evitando que a morosidade administrativa inviabilize ativos que ainda possuem potencial produtivo.

Infraestrutura também é produção

Outro componente do barril perdido está na infraestrutura. Um campo pode possuir reservas, tecnologia e uma empresa disposta a investir, mas não conseguir desenvolver plenamente seu potencial se não houver acesso economicamente viável a sistemas de coleta, processamento, transporte, armazenagem ou escoamento.

Essa questão é especialmente relevante para o gás natural. Produzir gás é apenas uma parte da equação. É preciso ter condições de movimentá-lo, processá-lo e colocá-lo no mercado. Sem infraestrutura adequada e acesso competitivo, parte do potencial de produção permanece, na prática, inacessível.

Capital para transformar potencial em barris

Há ainda uma variável decisiva: financiamento. Projetos de revitalização frequentemente exigem investimentos antes que o aumento da produção apareça. Em campos maduros, o risco geológico pode ser menor porque o ativo já é conhecido, mas permanecem riscos operacionais, de reservatório, de mercado e regulatórios.

Para empresas de menor porte, o custo e a disponibilidade de capital podem ser determinantes. É necessário, portanto, criar condições para que o capital privado enxergue nesses ativos oportunidades competitivas.

Segurança jurídica, previsibilidade regulatória, estabilidade contratual e mecanismos financeiros adequados são tão importantes quanto a tecnologia de produção.

O barril recuperado também é segurança energética

Essa discussão não deve ser tratada apenas como uma pauta empresarial. A produção de campos maduros deve fazer parte da estratégia brasileira de segurança energética. Um barril produzido no Brasil gera muito mais do que energia: movimenta fornecedores, gera empregos diretos e indiretos, tributos, royalties, renda e investimentos.

Nas regiões produtoras, especialmente nos municípios do interior, a continuidade da atividade pode ser decisiva para a economia local. Produzir melhor os ativos que já conhecemos é também uma forma de transformar recursos naturais em desenvolvimento territorial.

Onde está, então, o maior barril perdido?

Talvez a resposta não esteja em um único campo ou em uma única bacia. O maior barril perdido pode estar justamente na diferença entre aquilo que nossos reservatórios ainda podem produzir e aquilo que as condições econômicas, regulatórias, ambientais, financeiras e operacionais permitem efetivamente recuperar. Esse é um problema e, principalmente, uma oportunidade.

O Brasil precisa avançar em uma política nacional de maximização do fator de recuperação, revitalização de campos maduros e aproveitamento de acumulações de menor porte. Isso passa por uma regulação proporcional, licenciamento ambiental eficiente, acesso competitivo à infraestrutura, melhores condições de financiamento e estímulos ao investimento em tecnologia e recuperação de reservas.

Recuperar esse petróleo e esse gás não significa apenas produzir mais. Significa aproveitar melhor os recursos que já conhecemos, fortalecer a segurança energética, estimular investimentos, gerar oportunidades para empresas e fornecedores e transformar a atividade petrolífera em desenvolvimento permanente para municípios, estados e para o país.

O maior barril perdido do Brasil talvez não esteja escondido em uma nova fronteira. Pode estar nos campos que já conhecemos — esperando condições para voltar a produzir.

 

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