Acelen vê na crise do petróleo impulso para refino de fósseis e renováveis
Acelen vê na crise do petróleo impulso para refino de fósseis e renováveis
Marcelo Lyra, VP de Relações Institucionais, Comunicação e ESG da Acelen, destaca o foco da companhia nos biocombustíveis e detalha como a Refinaria de Mataripe está navegando no atual cenário energético de crise provocada pelo conflito do Oriente Médio
O conflito do Oriente Médio, que está provocando enorme desequilíbrio de preços por causa da interrupção dos fluxos de produção e transporte de petróleo e gás na região, colocou o Grupo Acelen, dono da Refinaria de Mataripe, na Bahia, a maior privada do país, no centro das discussões de preços ao consumidor, e até alvo de defesa de reestatização pelo governo federal.
Mas a crise do petróleo causada pela guerra dos EUA e Israel cotra o Irã também está sendo motor para o grupo impulsionar o aumento da produção do refino de combustíveis fósseis e alavancar o projeto de US$ 3 bilhões que desenvolve de produção de biocombustíveis a partir da macaúba beneficiada.
Em entrevista à Brasi Energia durante o Ibem 2026, o vice-presidente de Relações Institucionais, Comunicação e ESG da Acelen, Marcelo Lyra, falou sobre a volatilidade de preços provada pela guerra no Oriente Médio, do aumento da produção de combustíveis fósseis, da dificuldade das refinarias privadas comprarem petróleo a preços competitivos e das perspectivas animadoras da produção de biocombustíveis a partir do beneficiamento da macaúba com alto nível de tecnologia.
Segundo o executivo, a Refinaria de Mataripe está conseguindo atender seus mercados, concentrados na Região Nordeste, graças aos investimentos feitos pelo grupo em modernização e segurança da refinaria, que permitiram a ampliação de 90 mil barris diários na produção inicial da refinaria desde que foi comprada da Petrobras em 2022.
Lyra destaca que a refinaria, como processadora de petróleo, está sendo impactada pela alta dos preços internacionais, sobretudo porque importam 40% do óleo cru do petróleo e a alta está endo repassada nos preços dos seus produtos, garantindo o abastecimento dos mercados atendidos pela empresa.
“A gente tem procurado colocar a produção no máximo possível considerando, essas condições de preço de petróleo. A refinaria tem operado com carga elevada e a gente está colocando à disponibilidade da sociedade gasolina, diesel, querosene de aviação, bunker oil, dentro dessa capacidade que a gente tem realizado na planta, com segurança de processo, garantindo que a gente está produzindo com absoluta segurança e dentro dos fundamentos de questões ambientais”, informou o executivo.
De acordo com o VP da Acelen, por ser uma refinaria independente, sem produção de petróleo, a empresa está comprando o petróleo mais caro por causa da guerra do Oriente Médio e aderiu ao programa de subvenção do governo federal no preço do diesel, com isenção do PIS/Cofins, mas ressaltou que o benefício também precisa ser estendido ao preço do petróleo comprado pelas refinarias privadas para produção do diesel.
“Caso contrário, eu gero um crédito de PIS/Cofins que a empresa refinadora acumula, que ela não consegue fluir esse crédito na venda dos combustíveis. Então isso pode sugar o caixa da empresa e acabar tendo um efeito negativo, contrário do que a medida pretende, que é exatamente garantir preços mais estáveis e, portanto, produção mais firme também. Então a medida é boa, mas precisa ter esse complemento da desoneração do PIS/Cofins do petróleo que produz esse diesel para quem compra petróleo, que é o caso da Acelen”, explicou Lyra.
Ele também questionou a taxação da exportação do diesel determinada pelo governo, que a seu ver é um complemento da subvenção desde que seja aplicada apenas e exclusivamente sobre o diesel rodoviário, que é exatamente a intenção do governo.
“Hoje existe uma certa dúvida se os outros produtos da mesma NCM, que é a classificação contábil do diesel rodoviário, estariam sobretaxados ou não. A gente entende que essa sobretaxa fica restrita ao diesel rodoviário, mas se for para outros produtos, como o MGO, que é o chamado diesel marítimo, esse produto o Brasil exporta. Então se você cria uma sobretaxa no MGO, aí você tem um produto que é naturalmente exportado sobretaxado, você vai começar a desequilibrar toda a cadeia produtiva, inclusive a capacidade de produção das refinarias independentes”, detalhou Lyra.
Mas o contexto de crise do refino de combustíveis fósseis enfrentada pela Rlam não tira da Acelen o entusiasmo pelo seu novo projeto de combustíveis renováveis, na qual o grupo está investindo US$ 3 bilhões. Os recursos incluem a construção de uma biorrefinaria este ano, com decisão final de investimento a ser anunciada este ano, que vai começar a produzir 1 bilhão de litros de SAF e HVO a partir do óleo de macaúba proveniente do plantio de 180 mil hectares.
“É um projeto extremamente competitivo e nós já avançamos no ano passado em etapas muito importantes. O principal marco do ano passado foi a inauguração do Agriparque, que é o nosso centro de tecnologia para desenvolver geneticamente a planta da macaúba e produzir mudas em escala, para serem plantadas nas nossas fazendas”, informou Lyra, se referindo ao parque tecnológico inaugurado ano passado pela Acelen em Minas Gerais para beneficiamento de mudas, que já conseguiu elevar expressivamente o nível de germinação da espécie e deverá produzir 10,5 milhões de mudas por ano.
“Nós temos muita tecnologia lá de produção de mudas. Um processo de que se chama escarificação da semente, que é você tirar um pouquinho de um filmezinho da semente para que ela possa germinar. E a gente conseguiu fazer com que o índice de germinação, que na natureza ocorre naturalmente, em torno de 3 a 5% das sementes, nesse processo tecnológico nós conseguimos ampliar o índice de germinação para acima de 80%. E fizemos isso num sistema robotizado, onde a escala foi garantida. Então a gente consegue preparar uma semente para ser plantada, uma semente por segundo, com um sistema de braços robóticos, que pegam a semente, colocam na posição correta, fazem uma perfuração milimétrica com um laser. É um processo bem tecnológico. Então esse sistema foi testado, está implantado e está em produção”, detalhou Lyra.
O projeto, segundo Lyra, já tem cerca de 500 hectares plantados já com macaúba e também desenvolve a criação das primeiras variedades clonais, com objetivo de aumentar a produtividade, diminuir tamanho da árvore e aumentando a concentração de óleo por fruto.
O executivo informou ainda que neste ano a Acelen está dedicada à compra das fazendas para o plantio da planta e o início da construção da biorrefinaria, que deve ser construída ao lado da Rlam e ficar pronta, com capacidade plena, em cerca de 30 meses.
Enquanto a macaúba ainda estiver em desenvolvimento para extração do óleo, a biorrefinaria processará outros óleos: óleo de cozinha usado (UCO, na sigla de Used Cooking Oil), óleo de soja, óleo de milho e um blend desses outros óleos, para entregar a demanda que já existe no mercado.
Para Marcelo Lyra, a atual crise do petróleo causada pelo conflito do Oriente Médio deve impulsionar a competitividade de projetos desse tipo. “A gente tem oportunidade de ganhar um pouco mais de autossuficiência na produção de combustíveis fósseis, mas temos oportunidade também grande de agora, nesse momento, alavancar a produção de biocombustíveis, garantindo uma segurança energética para o Brasil para o futuro, independente desse momento de instabilidade. E é importante que a gente conquiste esses dois atributos. Nós temos tudo para fazer isso nos próximos anos”, afirmou.
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