Energia nuclear entra na pauta estratégica do Brasil no Ibem 2026

Revista Brasil Energia | Ibem 2026

Energia nuclear entra na pauta estratégica do Brasil no Ibem 2026

Reservas, demanda e tecnologia existem; falta o marco legal para destravar investimentos, dizem especialistas no evento

Por Geraldo Bastos

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Painel do IBem 2026 debateu a energia nuclear (Foto: Divulgação)

O Brasil vive um momento singular no setor nuclear. Essa foi a mensagem central do painel "Novas fronteiras da energia", um dos destaques do último dia do Ibem 2026, realizado nesta quinta-feira (26), no Centro de Convenções Salvador. Com a presença de Ivan Dybov, diretor da Rosatom para a América Latina, e de Celso Cunha, presidente da Associação Brasileira para Desenvolvimento das Atividades Nucleares (Abdan), o debate mostrou que o tema saiu de vez da margem e ganhou o centro das discussões estratégicas sobre energia no país.

Ivan Dybov foi direto ao ponto: “O Brasil hoje é um verdadeiro gigante adormecido do setor nuclear mundial”. Segundo ele, o país reúne ativos raros - reservas de urânio, base industrial e demanda crescente — mas ainda carece de avanços regulatórios para destravar investimentos.

Dybov destacou que mudanças recentes na legislação, permitindo parcerias entre estatais e empresas privadas na mineração, tendem a melhorar a percepção de risco e atrair capital. “Isso vai dar possibilidades grandes para o setor nuclear brasileiro”, afirmou.

Na prática, a movimentação já começou. Um dos marcos recentes foi o contrato entre a Indústrias Nucleares do Brasil (INB) e o grupo Rosatom, braço da estatal nuclear russa, para processamento no exterior de até 275 mil kg de concentrado de urânio produzido em Caetité (BA). O material será convertido e enriquecido, retornando ao país até 2027 para abastecer a usina de Angra dos Reis.

“Visitamos Caetité e ficamos impressionados. Há perspectivas boas de avanço no programa nuclear brasileiro”, disse Dybov. Para ele, projetos estruturantes como Angra 3 têm potencial de funcionar como “sinal forte para o mercado” e ativar toda a cadeia produtiva. Dybov ainda vê com bons olhos a chegada da Âmbar Energia ao setor nuclear nacional, entendendo o movimento como mais um indicativo da maturidade crescente do mercado brasileiro.

Abdan

Do lado brasileiro, Celso Cunha, presidente da Associação Brasileira para Desenvolvimento das Atividades Nucleares (Abdan), reforçou o argumento com uma visão mais sistêmica. “A energia nuclear é limpa, altamente eficiente e gera energia em um espaço muito pequeno”, resumiu.

Ele chamou atenção para um ponto sensível: a estabilidade. Em um país com forte presença de fontes renováveis intermitentes, como eólica e solar, a nuclear surge como base firme. “É a grande solução”, afirmou. “Nossa geração está capenga. Falta uma fonte previsível e despachável para sustentar o crescimento", afirmou ele. 

Cunha também conectou o debate à geopolítica. “É extremamente importante um país ser independente energeticamente. Um país dependente não consegue crescer”, disse. Para ele, o Brasil está diante de uma oportunidade estratégica: “Podemos ganhar muito dinheiro vendendo combustível. Nada de exportar minério in natura”.

Os números reforçam o potencial. O Plano Nacional de Energia 2055 elevou a projeção da capacidade nuclear para até 14 GW, o que pode representar investimentos da ordem de US$ 50 bilhões nas próximas décadas.

Outro tema que ganhou espaço foi o dos Small Modular Reactors (SMRs) — reatores de pequeno porte, modulares, fabricados em escala industrial e instaláveis em diferentes locais. No Brasil, duas refinarias da Petrobras já são cotadas para receber esse tipo de tecnologia, com foco na descarbonização industrial. A Polônia, Cunha lembrou, já está substituindo suas usinas termelétricas a carvão por SMR.

Mas há um obstáculo que o presidente da Abdan não hesitou em nomear: a ausência de um marco legal robusto. "Sem marco legal, ninguém bota dinheiro — e dinheiro não está faltando. Falta marco legal", alertou. Para Cunha, equacionar essa questão é o passo decisivo para destravar o potencial nuclear brasileiro.  

Realizado no Centro de Convenções de Salvador, o Ibem 2026 reuniu cerca de 3.500 participantes de mais de 20 países, além de 70 expositores e 90 palestrantes. Ao longo de três dias, o evento consolidou o Brasil como vitrine global de diversidade energética. 

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