O biometano como resposta brasileira à nova crise do petróleo

Opinião

O biometano como resposta brasileira à nova crise do petróleo

Assim como ocorreu com o etanol, importante para a frota dos leves, o biometano de aterros sanitários e dos resíduos do agro pode nos tirar da dependência do diesel importado e ser ofertado em todo o país com os corredores logísticos

Por Bruna Moraes

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Os atuais conflitos no Oriente Médio vêm expondo uma vulnerabilidade estrutural do Brasil já conhecida: a dependência de combustíveis fósseis em setores críticos da economia. Se na crise de 1970 a gasolina era o problema, hoje o diesel é o protagonista. Apesar do país ser grande exportador de petróleo bruto, cerca de 25% do diesel ainda é importado. Isso significa que, mesmo com uma matriz energética diversificada, o país permanece exposto à volatilidade internacional em um insumo essencial para sua logística.

Em um país de dimensões continentais e fortemente dependente do transporte rodoviário, o impacto é imediato, com aumento no custo do frete, de alimentos e inflação.

Na crise de 70 a resposta brasileira com o etanol foi estratégica e estruturante: o Programa Nacional do Álcool (Proálcool) deu origem a uma das indústrias de biocombustíveis mais bem-sucedidas do mundo. Sendo o segundo maior produtor mundial de etanol e o primeiro à base de cana-de-açúcar, o Brasil tem elevada penetração do biocombustível na frota leve e mistura obrigatória à gasolina, o que reduziu significativamente a dependência externa.

Mas essa resposta não chegou no transporte pesado e o diesel segue como o elo mais vulnerável da matriz de transporte brasileira (apesar da mistura com o biodiesel, atualmente em 15%). É aí que outro biocombustível entra em cena como parte da resposta à nova crise: o biometano, gás renovável obtido a partir da purificação do biogás, com composição similar ao gás natural.

Atualmente, os aterros sanitários são os maiores produtores de biometano no Brasil, havendo 9 unidades produtoras e 15 projetos em fase de autorização pela ANP, segundo levantamento da Abrema.

A recente Lei do Combustível do Futuro impulsionou os investimentos no setor a partir dos incentivos para a substituição de combustíveis fósseis (em especial o gás natural) por renováveis, criando um nicho de mercado para o biometano estimulado pela formação de consórcios intermunicipais que permitem o uso compartilhado dos aterros.

Hoje são produzidos cerca de 550 mil m³/dia de biometano no Brasil, majoritariamente a partir de resíduos urbanos. Considerando a equivalência energética aproximada (1 m3 biometano ~ 1 L de diesel), esse volume corresponde a cerca de 200 milhões litros/ano de diesel, o equivalente a 1% do diesel importado. Parece pouco, mas o biometano dos aterros é só a ponta do iceberg.

Apesar de terem iniciado o mercado de biometano no país, os aterros possuem uma limitação técnica para sua expansão, além de centralizarem a produção em regiões metropolitanas. Portanto, dificilmente irão sustentar a escala necessária para ampliar a substituição do diesel.

É aí que entra o agro como motor de escala: só o setor sucroenergético tem potencial de produção de 3,7 bi m³/ano de biometano, considerando somente vinhaça e torta de filtro como substratos, o que permitiria ampliar para mais de 20% a substituição do diesel importado.

E mais importante que o número absoluto, é o modelo que ele viabiliza. Como a solução vem de forma descentralizada no agro, um novo conceito estruturante ganha notabilidade: os corredores logísticos regionais, que são regiões onde produção e consumo do biocombustível ocorrem de forma integrada, reduzindo custos logísticos e aumentando sua competitividade frente ao diesel.

Nesta configuração, o biometano deixa de ser urbano e passa a ser territorial, ganhando a escala sistêmica necessária capaz de atenuar a forte dependência do combustível fóssil.

Mas os benefícios dessa rota não se limitam ao setor energético. A produção de biometano a partir de resíduos agroindustriais também gera o digestato, um subproduto com alto valor como fertilizante (insumo que também vem revelando outra vulnerabilidade do Brasil no contexto atual). O Brasil importa cerca de 85% dos fertilizantes que consome, o que torna o setor agrícola fortemente dependente de cadeias globais.

A guerra no Oriente Médio agrava esse cenário, especialmente considerando que uma parcela significativa do comércio global de insumos, como amônia e fosfatos, passa por rotas estratégicas da região, como o Estreito de Ormuz. A instabilidade nessas rotas impacta diretamente preços e disponibilidade.

Há, portanto, uma oportunidade clara de se reorganizar a relação entre energia, resíduos e agricultura no país, sendo uma das respostas mais consistentes e genuinamente brasileiras para um problema global. Para isso é preciso ter visão estratégica e de longo prazo, com coordenação entre setores, políticas púbicas e investimentos.

O etanol nos mostrou isso, se consolidando como solução nacional e massificada para o transporte leve (por vezes subvalorizada, mas esta é outra história...). O biometano, por sua vez, tende a seguir uma trajetória mais regionalizada, associada a corredores logísticos e integrada a cadeias produtivas específicas.

De qualquer forma, o paralelo histórico é válido: ambos biocombustíveis emergem como respostas brasileiras a momentos de crise e como instrumentos de redução de dependência externa de combustíveis fósseis.

Também fica evidente que a solução estrutural do problema não está em subsidiar e desonerar os fósseis, que são medidas emergenciais em momentos de crise. Parte da resposta está nas montanhas dos aterros e, sobretudo, nos fluxos contínuos do agro brasileiro, à espera de escala, coordenação e prioridade estratégica.

 

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