A geopolítica do petróleo e a ética empresarial
Opinião
A geopolítica do petróleo e a ética empresarial
Algumas ONGs de atuação internacional muitas vezes agem de forma distinta em outras regiões onde seus potenciais financiadores exploram petróleo
Uma das questões mais estarrecedoras que li poucos meses atrás foi uma entrevista de um ex-Presidente da Petrobras se vangloriando de, em sua gestão, ter acabado com a Universidade Corporativa (Universidade Petrobras), em especial por ela ministrar cursos de “Geopolítica do Petróleo”.
Minha indignação se incorporava a uma visão própria de um funcionário de carreira, pela constatação de que tal medida foi muito além da inexperiência do executivo na área, e pela visão míope que permeava em alguns que atuam no setor de energia, que acreditavam que essa questão não estava mais presente em um mundo globalizado, onde o petróleo seria uma mera commodity.
As restrições da oferta de gás da Rússia para países da Europa, o acordo tarifário dos Estados Unidos com a União Europeia impondo a compra de energéticos e, em especial, a recente intervenção americana na Venezuela com a "extração" de um presidente, despertaram muitos para o fato de como a indústria da energia, especialmente a do petróleo, está fortemente inserida no processo geopolítico internacional e que, portanto, merece toda atenção em sua dinâmica.
A leitura desse movimento deixou de ser subliminar e passou a ser clara e objetiva, pois as razões que justificaram a intervenção americana foram externalizadas de maneira bastante direta e colocaram em evidência o caráter estratégico e comercial dessa operação, inclusive destacando o fechamento de reservas potenciais para países como a China. Além disso, a atual crise interna política no Irã e o potencial enfraquecimento da Opep trarão novos ingredientes nesse novo e dinâmico movimento.
Nesse novo cenário, portanto, a discussão no Brasil sobre se deveríamos ou não desenvolver a exploração da Margem Equatorial brasileira ficou bastante superada diante desses fatos recentes e de movimentos abruptos, trazendo, consequentemente, a derrocada de alguns discursos de formadores de opinião e de algumas ONGs de atuação internacional. Aliás tais organizações, muitas vezes, agem de forma distinta em outras regiões onde seus potenciais financiadores exploram petróleo, tornando evidente um xadrez geopolítico que não pode ser ignorado, tanto do ponto de vista da estratégia nacional quanto da lógica empresarial.
A posição brasileira como país de democracia estável poderá ser percebida e cotejada não apenas diante dos riscos dessas intervenções, associadas a elevados custos de desenvolvimento da produção, mas também pelas oportunidades que levaram empresas a se posicionarem de forma positiva, de maneira isolada ou em parceria com grupos chineses e até com a Petrobras, no último leilão da ANP, no qual foram ofertadas e adquiridas áreas da Margem Equatorial.
Por sua vez, muitos conglomerados empresariais internacionais já se posicionam com bastante cautela em relação a investimentos na Venezuela, como o relatado pela mídia da manifestação em reunião, com o presidente dos EUA, pelo CEO da Exxon Mobil, Darren Wood.
Os riscos, além de institucionais pela ausência de uma legislação na Venezuela que garanta tais investimentos no longo prazo, envolvem também a própria continuidade de se manter uma política americana expansionista, não assegurada pelas limitações constitucionais de novas reeleições, mesmo diante de uma Suprema Corte Americana com maioria indicada por governos republicanos. Além disso já se observa um crescimento da insatisfação da sociedade americana, que vivencia essa dualidade, o que certamente dificultará eventuais teses de novos mandatos.
Do ponto de vista da ética empresarial e ambiental, à medida que tais movimentos expõem claramente seus objetivos, teremos nos próximos meses um debate bastante complexo entre empresas, investidores e fundos de investimentos sobre até que ponto uma oportunidade de negócios deve ser conduzida quando existirem indícios de violação do direito internacional.
Além dessa questão há a atuação em condições e regras ambientais heterodoxas, muito aquém dos piores padrões existentes durante o processo de retomada de aumento da produção. Essas discussões portanto deverão ser aprofundadas nesse horizonte, mas precisamos reconhecer que estão totalmente distintas da visão simplista de um “game over” que muitos tiveram no primeiro momento do acontecido.
A retomada da visão de que a questão da energia está cada vez mais ligada a uma estratégia internacional a ser monitorada e antecipada, revela uma postura que vai muito além da reflexão e que requer a preparação de profissionais e executivos.
Da mesma forma, a discussão por analistas do mercado de petróleo muitas vezes não se aprofunda na questão de derivados, o que requer cada vez mais atenção para atualização do Parque de Refino de países que não querem e não podem ficar presos a mercados restritos da oferta de petróleo ou que, como produtores, querem garantir pelo menos a sua segurança energética interna e o abastecimento do seu próprio mercado como é o caso do Brasil.
É óbvio que as desastradas ações do gestor citado na introdução foram devidamente corrigidas: a universidade corporativa foi recriada, assim como seus cursos de geopolítica, que se somam a iniciativas de retomada do tema.
Essas ações na tônica interna já podem ser percebidas, inclusive, com a recente realização das Olimpíadas Brasileiras de Geopolítica (OBGP) para alunos do ensino fundamental e médio, a exemplo do sucesso de outras olimpíadas do conhecimento, como a Olimpíada Brasileira de Matemática (OBMEP), a Olimpíada Brasileira de Física, entre diversas outras.
Portanto, o tema da geopolítica do petróleo ou, de forma mais ampla, da geopolítica da energia, que também passa pela definição das cadeias globais de suprimento de bens e equipamentos e do domínio e processamento dos minerais estratégicos, será certamente um dos focos centrais de discussão ao longo desse ano e em eventos internacionais como a Cera Week, em Houston, e a WPC Energy, em Riyadh.



