Descomissionamento no Transporte e Refino de Petróleo

Opinião

Descomissionamento no transporte e refino de petróleo

Nesse artigo, vamos trazer a complexa operação de desmonte de todo setor chamado de downstream da indústria, ou seja, as refinarias, navios de transporte de óleo e derivados, terminais em geral e centros de estocagem e distribuição de petróleo

Por José Almeida

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Coautores: Bruno Leonel e Simon Ricardo Sanandres*

O petróleo vem dominando o setor industrial no mundo praticamente desde o início das primeiras descobertas, ainda no século XIX, quando o mundo era movido, em sua grande maioria, com óleo de baleia, lenha e com pequeno uso de carvão. Tão logo o petróleo foi descoberto e começou a ser produzido, a indústria conseguiu utilizá-lo ainda em seu estado natural, sem refino. Boa parte do óleo de baleia foi substituído pelo querosene e, com a invenção dos motores a combustão, o petróleo começou a ser largamente utilizado como principal fonte energética do mundo.

Com os volumes de produção de petróleo crescendo e com as diversas inovações ocorridas no século XIX surgiu a demanda pelos derivados de petróleo e com isso o processo de refino. Os derivados de petróleo representam um segmento importante da economia, principalmente ligado aos meios de transportes em geral.

As primeiras refinarias começaram ainda nos meados do século XIX, primeira na Roménia (1856), depois nos Estados Unidos (1861) e Rússia, sem data específica, mas antes final do século XIX.

O mundo tem hoje 825 refinarias de vários tamanhos e com capacidade de refino variado. Há uma estimativa de construção de mais 181 até 2030. A Ásia abriga o maior número de refinarias em operação e planejadas. A possível redução do consumo de derivados pode causar uma tendencia de não construção de mais unidades, visto que refinarias ociosas tem custos muito elevados.

Os custos para descomissionar uma refinaria pode variar drasticamente entre centenas de milhões até dezenas de bilhões de dólares, dependendo do estágio de contaminação, da localização do projeto, da idade, das distâncias para transporte do  material a ser removido até o local de descarte.

Há quem afirme que, em certos casos, os custos de descomissionar podem figurar próximos aos custos de construir, dependendo dos fatores acima citados e principalmente dos custos para reparar as contaminações, que podem levar décadas. A construção de uma refinaria de 100 mil barris/dia pode custar em torno de 5 bilhões de dólares.

Considerando que o mundo construa as 181 refinarias previstas até 2030, chegaremos a cerca de 1.000 unidades, entre grandes e pequenas. Considerando ainda um custo médio de completo descomissionamento de 2 bilhões de dólares por unidade, chegamos a um custo de 2 trilhões de dólares para desmonte, remoção, reciclagem, regeneração das áreas e outros serviços das refinarias existentes.

Este é um volume enorme de trabalho a ser criado e muito material será reciclado. Boa parte da mão de obra que hoje atua no refino certamente poderá ser aproveitada e um ciclo de novas atividades no aproveitamento e reciclagem dos materiais vai acontecer.

A indústria de um modo geral deve começar a se preparar para o projeto de longo prazo de desmonte, limpezas e reciclagem de todo esse material hoje usado nas refinarias. Há indicativos de que os valores dos materiais podem custear 30% das despesas de descomissionamento.

As 20 maiores refinarias no mundo
  Refinaria  Proprietária  Localização  bbl/dia
1 Jamnagar  Reliance Industries  Índia 1.240.000
2 Paraguana PDVSA Venezuela 940.000
3 Ulsan  SK Energy South Korea 840.000
4 Ruwais National Oil Comp.  UAE – Abu Dabi 817.000
5 Yeosu GS Caltex South Korea 730.000
6 Onsan S-Oil South Korea 669.000
7 Dangote  Dangote Group Nigeria 650.000
8 Galveston Marathon Texas, USA 631.000
9 Port Arthur Saudi Aramco Texas, USA 630.000
10 Al Zour  Petroleum Corp.  Kuwait 615.000
11 Beaumont ExxonMobil Texas, USA 609.024
12 Jurong Island  ExxonMobil Singapore 605.000
13 Garyville  Marathon  Louisiana, USA 597.000
14 Baytown ExxonMobil Baytown, USA 584.000
15 Daesan Hyundai Oilbank South Korea 561.000
16 Ras Tanura  Saudi Aramco Saudi Arabia 550.000
17 Baton Rouge ExxonMobil Louisiana, USA 540.000
18 Mailiao  Petrochemical Taiwan 540.000
19 Shell Pulau  Shell Singapore 500.000
20 Mina Al-Ahmadi KNPC Kuwait 466.000

 

Além das refinarias, há também a estrutura para transporte do petróleo cru e seus derivados, como os petroleiros, que certamente terão outros destinos, inclusive o desmonte e aproveitamento do aço e outros materiais.

Há registros de que o mundo possui 7.500 navios de vários tamanhos e capacidades para transportes de óleo e seus derivados, incluindo os chamados VLCC, com capacidade de transporte entre 1,5 e 2,4 milhões de barris.

A preços de mercado, esses navios podem ser vendidos entre 20 e 30 milhões de dólares para desmonte em estaleiros da Ásia, principalmente Bangladesh, Índia e Paquistão. A operação de desmonte de um dos últimos VLCC demorou mais de 500 dias.

navio artigo José Almeida

VLCC ZOIA I construído em 1996 foi levado para estaleiros no Paquistão para desmonte em 2020, com menos de 25 anos de vida. Foi vendido por 15 milhões de dólares.

Além das refinarias e dos navios tanque, há os terminais que recebem os petroleiros e se conectam às refinarias entregando petróleo cru e recebendo derivados. Há registros que o mundo possui 6.400 terminais e hubs de estocagem, geralmente próximos aos grandes centros produtores de petróleo do mundo.

Uma vez que haja menos refinarias e petróleo a ser transportado, esses terminais e pontos de estocagem deverão ser desmontados ou adaptados, quem sabe, para receber biocombustíveis ou hidrogênio. Em todo caso, adaptações serão necessárias e muitos deles deverão ser descomissionados e suas áreas limpas e descontaminadas. Os custos para descomissionamentos variam em função do tamanho, idade, condições físicas, localização, grau de contaminação, rigor das leis ambientais etc. mas podem variar de milhões até bilhões de dólares para completo descomissionamentos incluindo os custos de remediação.

Por último, há que se considerar também outras instalações de armazenamento de óleo para posterior distribuição aos centros consumidores e exportação. A segunda tabela deste artigo exibe os 16 maiores centros de estocagem e terminais de armazenamentos e distribuição do óleo vindo dos campos de produção.

Os custos para descomissionamentos desses terminais são parecidos com aqueles usados para descomissionar as estruturas e tanques dos campos de petróleo, algo entre 4 e 10 dólares por barril. Usamos naquele exercício 4 dólares, mas nesse caso há indicações de maior complexidade e há recomendações para uso de algo como 6 dólares por barril. Um centro, como De Oklahoma nos Estados Unidos, poderia custar algo como 500 milhões de dólares para completo descomissionamento.

Para facilitar os cálculos vamos imaginar que essas instalações exijam custo médio de 150 milhões de dólares para completo desmonte, remoção, limpezas da aérea e das linhas de conceção. Teríamos um custo total de 960 bilhões de dólares, quase um trilhão.

Em resumo o descomissionamento do downstream da indústria de petróleo custaria algo em torno de 3 trilhões de dólares. Esperamos que a conta seja paga por quem tem os benefícios do negócio, ou seja as empresas.

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*Bruno Leonel é geólogo na Petroil e Simon Ricardo Sanandres é engenheiro de dutos e terminais.

 

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