Energia fóssil ou renovável? O “e” ao invés do “ou”
Opinião
Energia fóssil ou renovável? O “e” ao invés do “ou”
O Brasil, com recursos renováveis abundantes, cunhou a expressão Adição Energética, mas ainda enfrenta desafios de infraestrutura e precisa lidar com variações hidrológicas
Dentro da atual conjuntura, recomendo a leitura do recém-publicado relatório "Energy Security: The “And” Strategy". Esse relatório publicado pela Sapienship, o think thank do Yuval Noah Harari, pensador influente na política ocidental, deixa claro que o debate energético mudou de eixo. Nos últimos anos, a discussão sobre clima perdeu e tem perdido espaço relativo, enquanto a segurança energética passou ao centro das decisões.
A pandemia, os conflitos geopolíticos e as interrupções nas cadeias de suprimento expuseram um problema óbvio: a dependência excessiva de poucos fornecedores muitas vezes diversos dos principais mercados.
O caso de países da Europa ocidental, a partir de 2022, ilustra bem esse ponto. Ao ter o fornecimento de gás interrompido pela Rússia por conta de pressão para a guerra com a Ucrânia, muitos países precisaram reorganizar rapidamente sua matriz, sendo que alguns já planejam retornar à geração nuclear que pretendiam descontinuar.
E esse tipo de vulnerabilidade global não é surpresa. Os dados mostram que 62% das reservas de petróleo estão basicamente concentradas em cinco países, 66% do carvão em quatro e metade do gás natural em apenas três. Trata-se de uma concentração que amplia riscos, sobretudo porque parte desses países não apresenta estabilidade política ou alinhamento com a esfera ocidental.
O trabalho apresenta as energias renováveis como uma solução inicial nessa equação porque, diferentemente dos combustíveis fósseis, sol e vento são recursos naturais para cerca de 90% da população mundial. Mas mesmo para quem vive em regiões com alto potencial solar esses recursos não corresponderam como solução definitiva.
Estudos do passado indicavam que a expansão das renováveis poderia reduzir riscos comerciais a 70% dos países e beneficiar 85% da população em termos de segurança energética.
Mas seria ingênuo e até perigoso enxergar as renováveis como pedra filosofal capaz de resolver esse problema. O próprio enfoque do relatório é contundente ao desmontar completamente esse mito.
Na verdade, a dependência tem mudado de forma. A geração solar e eólica varia conforme o clima e exige redes mais robustas, sistemas de armazenamento e também fontes complementares. Já a produção de baterias e equipamentos exige minerais críticos, como níquel e cobalto, cuja oferta também é concentrada. Aliás, o próprio refino desses materiais estratégicos para a transição está fortemente centralizado, com destaque para a China.
Mesmo com essas restrições, é óbvio que também existem ganhos. Tecnologias renováveis em muitos casos compensam as emissões de sua fabricação em cerca de dois anos de operação e, ao longo do tempo, produzem menos resíduos e consequentemente menos poluição. Sistemas elétricos também são mais eficientes na mobilidade pois um carro elétrico pode aproveitar até 90% da energia, enquanto um veículo a combustão, termodinamicamente falando, utiliza cerca de 30%. Além disso, na maioria das usinas térmicas, grande parte da energia se perde na forma de calor.
Nessa dinâmica, a expansão das renováveis em muitos países foi rápida. Nos últimos anos, cresceram em ritmo superior ao da demanda global, embora ainda representem cerca de 15% da energia primária. Nesse processo, a China tem ocupado posição central em termos absolutos, mas não relativos, combinando liderança em projetos voltados à redução de emissões com investimentos expressivos em energia limpa e principalmente com o amplo domínio de cadeias industriais. Isso tudo acontece em um cenário onde a China continua a ser o líder nas emissões de GEE no mundo.
O principal ponto do relatório está na proposta de estratégia. Em vez de uma transição baseada em substituição total, a recomendação é combinar fontes. A chamada “And Strategy” (a estratégia do “E”) parte de três diretrizes: diversificar a matriz energética, aumentar a eficiência dos combustíveis fósseis e também ampliar a cooperação internacional segura. Ou seja, em vez de “ou fósseis ou renováveis” a estratégia adequada seria “fósseis E renováveis”.
Essa abordagem faz sentido para o Brasil. Aqui, em evolução à expressão "Transição Energética" cunhou-se o termo "Adição Energética". O país dispõe de recursos renováveis relevantes, mas ainda enfrenta desafios de infraestrutura e precisa lidar com variações hidrológicas. Ao mesmo tempo, mantém produção de petróleo e gás que seguirá relevante no médio prazo e com a necessidade da exploração das chamadas novas fronteiras como a Bacia Potiguar e principalmente a Margem Equatorial.
O próprio Plano Decenal (PDE), publicado pela EPE, aponta que em menos de 10 anos poderemos perder nossa autossuficiência e voltar a ser importadores de petróleo quando a meta desejável para o Brasil deve ser oposta, ou seja, a autossuficiência também consolidada pela produção interna de derivados, em especial o diesel, a partir de petróleo nacional.
O recém realizado LRCap 2026, o maior leilão de energia da história do país, que contratou térmicas, foi baseado em estudos da EPE e do ONS, para o MME. Esses estudos demonstraram a necessidade dessas usinas para complementar, em especial, as usinas solares no horário da ponta, de 18h às 21h, pois sem esses sistemas de base fóssil o Sistema Interligado Nacional (SIN) corre riscos.
Se há uma lição que recebo e concordo desse estudo é que segurança energética não se constrói com certezas ideológicas, mas com pragmatismo estratégico. O futuro não será de uma única tecnologia, nem de uma única solução. Haverá um equilíbrio entre economia e estratégia. Mas, infelizmente, tal compreensão ainda não se consolidou no país onde as discussões de expansão muitas vezes são conduzidas como se fossem meras preferências futebolísticas e não baseadas em uma visão de busca por uma matriz equilibrada e diversa.
Como alguém que já ocupou cadeiras no setor de energia onde decisões difíceis foram tomadas, em especial no enfrentamento de um período denominado “apagão”, posso afirmar que o maior erro que pode ser tomado não é escolher o caminho errado: é ignorantemente acreditar que existe apenas um caminho possível.



